Quem me acompanha por aqui sabe que, em dezembro, iniciei uma trilogia de reflexões sobre grandes eventos globais como espelhos do nosso tempo. O primeiro artigo da série partiu da COP30 e da urgência climática. Agora, avanço para o segundo capítulo dessa jornada: a Copa do Mundo de 2026.
À primeira vista, pode parecer apenas futebol, mas, na prática, acredito que a próxima Copa será um dos maiores experimentos contemporâneos sobre dados, tecnologia e emoção humana já realizados.
Cabe lembrar que a edição de 2026 do mundial de futebol masculino será disputada em três países (Estados Unidos, México e Canadá), com transmissões multiplataforma, sensores em campo, métricas em tempo real e inteligência artificial analisando cada passe, corrida e decisão. Tudo será mensurável. Ou quase tudo…
Leia também: Entre o algoritmo e a rua: quando a tecnologia gera comunidade, e não só corridas
Copa do Mundo: entre os dados e o improvável
Digo ‘quase tudo’ porque, mesmo cercada por dashboards, algoritmos e modelos preditivos, a Copa do Mundo continuará sendo o território do improvável, do gol aos 48 do segundo tempo, do herói inusitado, da falha que ninguém antecipou e do gesto que vira símbolo.
É nesse ponto que o futebol se torna uma metáfora poderosa da era digital. Dados por todos os lados. Emoção por dentro.
Você já observou que nunca tivemos tanto acesso a dados sobre performance esportiva? Distância percorrida, fadiga muscular, aceleração, precisão de passes, mapas de calor. O jogo virou uma base estatística viva.
Sobre explicar e compreender o jogo
O problema começa quando passamos a confundir explicar o jogo com compreender o jogo. Explicar é quantificar: medir passes, mapear deslocamentos, calcular probabilidades. Compreender exige interpretar contexto, pressão, intenção e os estímulos aos quais o ser humano responde. A obsessão por métricas cria a ilusão de controle, como se medir tudo fosse sinônimo de entender tudo.
No futebol — assim como nas organizações e na política — essa lógica falha no ponto mais sensível: pessoas não reagem apenas a números, mas a incentivos, recompensas, punições simbólicas, expectativas sociais e emoções. Em um ambiente atravessado por apostas, interesses econômicos e estímulos externos invisíveis, dados não apenas descrevem a realidade — eles passam a moldar comportamentos e, em certos contextos, podem ser tensionados ou distorcidos.
Se estímulos influenciam decisões e decisões retroalimentam os dados, a pergunta deixa de ser quanto conseguimos medir e passa a ser: o quanto esses dados são realmente confiáveis para compreender o jogo?
Football Data Ecosysistem: tecnologia implantada na Copa do Mundo do Catar, em 2022, permitiu que todas as ações dentro do campo de jogo fossem registradas, tais como: todos os passes, chutes, substituições, decisões dos árbitros, ataques, defesas, faltas, aceleração e distância percorrida.
Monitoramento em tempo real
Fora do campo, o mesmo acontece com o torcedor. Plataformas monitoram tempo de atenção, engajamento em múltiplas telas, interações sociais, preferências de linguagem, comportamento de compra e reação a conteúdos em tempo real.
Segundo um estudo global da Nielsen, emocionalmente engajadas, as pessoas são 23% mais propensas a lembrar de uma marca e 31% mais inclinadas a agir após a exposição a uma experiência que gera conexão emocional, em comparação com estímulos puramente racionais (Nielsen Consumer Neuroscience, 2023).
Os dados são reveladores, mas também limitados
Isso se dá porque embora apontem o impacto da emoção, os dados não explicam por que ela surge, quando muda e como se manifesta de forma coletiva, espontânea e muitas vezes contraditória.
Esses fatores escapam às métricas tradicionais, pois, acredite se quiser, ainda tem coisas que somente nós, humanos, somos capazes de produzir…
O torcedor não é só um usuário. É um ser humano em rede
A Copa de 2026 consolidará o torcedor multiplataforma. Ele assiste pela TV, comenta no celular, reage nas redes, consome conteúdos paralelos, escolhe narradores, cria comunidades próprias e transforma o jogo em experiência compartilhada.
Ocorre que, na minha visão, esse comportamento, muito além de puramente técnico, também acaba sendo cultural, social e profundamente emocional.
É por isso que algumas cenas se tornam mais relevantes do que estatísticas impecáveis. Do que estou falando? Um torcedor anônimo pode virar símbolo. Um gesto na arquibancada tem potencial de ganhar significado político. Uma reação viralizada muda a forma como o mundo passa a interpretar o acontecimento.
Nenhum algoritmo prevê isso com precisão absoluta. No máximo, reage depois.
O limite da inteligência artificial é o contexto humano
Sim, a inteligência artificial é extraordinária para organizar volumes massivos de dados, identificar padrões e acelerar análises. Contudo, ela ainda depende de algo essencialmente humano: o olhar que interpreta o contexto.
Quanto mais sofisticados ficam os algoritmos, mais evidente se torna uma contradição incômoda: nunca tivemos tanta capacidade de prever padrões e, ao mesmo tempo, tanta dificuldade de lidar com o inesperado. Investimos milhões em tecnologia para antecipar comportamentos, mas seguimos desconfortáveis quando pessoas fogem do roteiro. A Copa do Mundo expõe esse paradoxo em escala global.
A emoção não nasce isolada. Ela surge do momento histórico, das tensões sociais, da cultura, da linguagem, das relações de poder e das histórias que cada pessoa carrega para dentro do jogo.
Um dos históricos gols de Maradona contra a Inglaterra na Copa de 1986. Vingança no futebol pelas Malvinas?
A Copa do Mundo acontece durante o período de um mês dentro de um mundo geopoliticamente instável (e põe instável nisso), culturalmente fragmentado e hiperconectado. Tudo isso atravessa o campo. Tudo isso influencia a forma como torcemos, reagimos, nos posicionamos e nos identificamos. E isso já era assim muito antes da atual Era dos Dados. Um gol de Maradona contra a Inglaterra não era apenas um gol. Era Malvinas argentinas versus Falklands britânicas.
Reduzir essa complexidade a gráficos pode parecer confortável, mas é insuficiente.
A Copa do Mundo como laboratório de escuta, não só de medição
Quando refletia para escrever este artigo, me veio à mente que, muito mais do que um evento esportivo, a Copa do Mundo de 2026 será um laboratório vivo de engajamento. Um espaço onde empresas, marcas e lideranças podem aprender algo imprescindível: dados sem escuta não geram compreensão.
O que pretendo dizer com isso? Não basta saber o que as pessoas fazem. É preciso entender por que sentem o que sentem.
Esse aprendizado vale muito além do futebol. Ele se aplica à experiência do cliente, à comunicação de marca, à liderança, à cultura organizacional e às decisões estratégicas em ambientes cada vez mais complexos.
Em linhas gerais, a grande lição da Copa do Mundo que vem por aí não estará nos sensores, nem nos algoritmos. Estará naquilo que continua escapando às planilhas e aos dashboards: a emoção coletiva, o improviso, a empatia e a capacidade humana de ressignificar acontecimentos em tempo real.
Ok, os algoritmos até preveem o jogo.
Mas é o humano que muda o placar.
E talvez a pergunta mais importante para empresas e líderes seja: em um mundo obcecado por dados, estamos realmente preparados para escutar o que não cabe nos dashboards?
Fique atento (a) porque em fevereiro irei publicar o terceiro e último artigo da nossa trilogia: Eleições: a sociedade como sistema inteligente (ou manipulável)
Até a próxima!
Rafael de Tarso
Professor, palestrante e especialista em inovação e transformação digital.